Aqui, partilho afectos.
E escrevo o que penso, do que gosto, do que me inspira.


domingo, 18 de maio de 2014

De amor andamos todos precisados

 
Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando...

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Às vezes em sonho triste


Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.
Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.
O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.
Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.

Fernando  Pessoa
Pintura de Kathy Fincher


sábado, 10 de maio de 2014

Hoje é o Dia Mundial do Lupus

 
Hoje, 10 de Maio, comemora-se o Dia Mundial do Lupus. O Lupus é uma doença auto-imune, na qual o sistema imunológico, que normalmente protege o nosso corpo, se vira contra si próprio e ataca-o, provocando inflamação e alteração do sistema afectado. Não existe causa conhecida, e não existe cura. O Lupus é uma doença crónica. A mim, tem-me acompanhado ao longo da minha vida. Já me pregou alguns sustos e por causa dele vivo permanentemente com dores articulares. Nunca me queixo, pois as dores são minhas e só a mim dizem respeito. Ao longo da minha vida sempre fui uma pessoa alegre, apaixonada pela vida, apesar de tudo. Tenho algumas limitações, é claro, mas tento superá-las com muita força de vontade. Mas, é difícil ter Lupus. Porque o Lupus não se vê, a não ser que faça estragos visíveis. E é muito difícil as pessoas compreenderem algo que não se vê. E como é que alguém pode compreender se temos aparência normal, ar saudável, podemos andar, trabalhar, ir às compras...
Mas o Lupus está no nosso interior, e só quem tem sabe como é difícil fazer tudo isto. Como é difícil levantar pela manhã, quando muitas vezes nem sabemos onde estamos nem que dia é da semana. Como é difícil ir trabalhar, ir ao supermercado e carregar os sacos das compras. Como doem os pés, as pernas, as costas, as mãos, quase tudo...
E, se tudo o que queremos muitas vezes é ficar quietas, sem nos mexermos, sem fazer nada, porque nos sentimos exaustas, todos acham que é preguiça.
E se engordamos, é sempre porque comemos demais, ou o que não devemos, ou porque não fazemos exercício físico... Nunca é porque temos Lupus.
Na realidade, o Lupus fez de mim uma pessoa forte, muito mais forte do que alguma vez poderia imaginar, fez de mim uma lutadora, mas não me tornou insensível à indiferença nem à incompreensão dos outros.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Guardador de rebanhos


Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

Pintura de Audrey Ficociello

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Pequena elegia chamada domingo


O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

Eugénio de Andrade, in “As mãos e os frutos” (1948)



quinta-feira, 1 de maio de 2014

1º de Maio - Dia do Muguet ou Lírio do Vale



O muguet, ou lírio do vale, viajou muito (dizem que do Japão), ate chegar a França, à corte do Rei Charles IX, a quem o ofereceram. E o rei gostou tanto do seu perfume e da sua originalidade, que a partir daquele ano de 1561, instaurou o costume de se oferecer o muguet às Damas da Corte, quando começava a florescer, no mês de Maio, como amuleto, para trazer boa sorte.
O muguet é uma plantinha perfumada, formada por pequeninas campainhas brancas entre uma folhagem grande e verde. Nasce nos bosques nos meses de Maio e Junho.
Em França, é tradição no dia 1º de Maio oferecer aos amigos e familiares "un brin de Muguet" que segundo reza a lenda, dá sorte a quem o receber.
Então, para todos, aqui deixo o meu raminho de muguet. Boa sorte!